MODA X FEMINISMO: qual a relação?

Minha relação com o feminismo é antiga, mas, como na maioria dos casos, eu não o compreendia de fato. Há 5 anos não era incomum me ver falando: “eu luto diariamente por igualdade”, a típica frase de quem não sabe exatamente o que está falando, essa é a verdade. O meu sonho era trabalhar com futebol mas sentia na pele a barreira do gênero, não entendia como combatê-la mas sabia que não era “batendo de frente” que conseguiria me estabelecer nesse mundo. Mais ou menos nessa época eu conheci uma pessoa, ela era jogadora de futebol profissional e ser humano excepcional. Ela tentou me explicar como eu estava errada e inclusive falou que já havia pensado exatamente da mesma forma antes de estudar sobre o feminismo. Esse diálogo foi todo em Inglês talvez por isso ou por bloqueios sociais eu não concordei com ela, mas nunca esqueci das palavras.

Essa parte da história quase todo mundo já sabe, mas eu vou resumir. Há aproximadamente 2 anos, decidi que não queria mais explorar o trabalho de ninguém para estar na moda. Entendi que existe uma pessoa (ou mais) por trás de cada produto que consumimos nessa vida e que se essa pessoa não tem condições adequadas de vida e trabalho então não vale a pena financiar esse tipo de coisa.

Não demorou muito para entender que essas pessoas por trás dos produtos  eram majoritariamente MULHERES e que as suas condições de trabalho estavam diretamente ligadas com o fato de serem mulheres. Ah, aí sim eu comecei a entender melhor como as coisas funcionam lá fora e até perceber questões na minha própria vida ~ privilegiada, sim ~ mas que foi (e ainda é) impactada pelo machismo.

Agora vamos aos dados:

Aqui no Brasil, 75% dos cargos direcionados a mão de obra são ocupados por mulheres, no mundo esse número pode chegar a 85%, segundo o filme “The True Cost”.

 

Já em cargos altos da indústria da moda, como diretoria ou presidência  o percentual é exatamente o inverso, já que aproximadamente 15% dos cargos são ocupados por mulheres.

Coincidência ou fatalidade a indústria da moda ser uma das mais alarmantes em termos de trabalho análogo à escravidão? Nem um, nem outro, na minha opinião é um reflexo social da submissão que foi normalizada à mulher durante gerações e gerações.

Porém, existe algo muito irônico nisso…

O mais absurdo na minha opinião é que somo NÓS, MULHERES, que financiamos essa desigualdade, já que somos as principais consumidoras e público alvo de empresas desse ramo.

Isso mesmo, a indústria explora mulheres para produzir para outras mulheres. E aí está a nossa oportunidade de EMPODERAR (palavra machucada mais importante) outras mulheres.

Como conhecimento é um caminho sem volta, eu estou cada dia acrescentando mais pré-requisitos para meu momento de escolher o que comprar e de quem comprar.

Qual a matéria prima? É biodegradável? A produção é justa? E o cultivo é gentil com seu produtor? Quem faz? Em quais condições? É uma mulher? Ela é incentivada? Sua remuneração é igual aos homens do mesmo cargo? O dono/presidente é uma mulher?

Mulheres em cargos de chefia não representam a solução do problema

Quem não fica feliz em ver mulheres CEOs de grandes companhias? Eu sempre comemorei quando vi uma mulher em cargos de chefias mas há pouco tempo entendi que não é a solução dos problemas e pode, inclusive, atrapalhar. Essa eu aprendi com a Sabrina do Tese Onze (se ainda não conhece, clica aqui). Essa pode ser uma estratégia do nosso querido e amado capitalismo que, para fortalecer a teoria da meritocracia, cede alguns cargos de poder para grupos historicamente diminuídos para mostra para o mundo que “basta querer” que você consegue e que se não consegue é única e exclusivamente pela sua incompetência e ninguém pode fazer nada em relação a isso – sabemos que essa não é a verdadeira história, não é mesmo?

Primeiro, não se iluda. Segundo, procure saber da história dessa mulher e como ela conduz seus negócios. Se nada faz para apoiar e empoderar outras mulheres, seu cargo não é um aliado à causa feminista, já que apenas auxilia a abafar uma luta com argumentações rasas.

Como comprar de forma feminista?

Entendendo quem faz e como faz as coisas que você consome. Procurando saber se essas pessoas são remuneradas justamente e quais são as pessoas envolvidas nos processos.

Uma dica para facilitar o seu trabalho, a grande maioria das marcas de slow fashion foram desenvolvidas por mulheres e tem maioria feminina no processo produtivo, algumas, inclusive, trabalham com a filosofia de só terem mulheres em sua equipe, desde o desenvolvimento do produto até o envio. Esse é o caso da minha queridinha, Leninha (clica aqui para conhecer a marca) que contratou uma moto girl para realizar os envios na cidade de São Paulo.

A camiseta que estou usando na capa desse post é do Project Três e, pra mim, ela é a representatividade do feminismo na moda de uma forma séria e coerente. Em uma de suas postagens no instagram o projeto explica com perfeição essa ideia de apenas vestirmos o feminismo sem se preocupar com a mulher que produz aquela peça não é o caminho. A reflexão não deve ser superficial.

 

Bom, essa é a reflexão do dia, pessoal. O que vocês acharam sobre o tema? Gostam de textos mais densos dessa forma? Ou preferem que os tópicos sejam mais separados e mais explicados? Deixem sua opinião nos comentários, é muito importante.

Beijos da Valen 

9 comments
  1. Amei! Reflexão importantíssima!
    Post sensacional! Pra começar 2019 com tudo!

    1. Já comecei 2019 com a corda toda, haha.

  2. Amei o texto, incrível! Para ler, reler e refletir!

    1. Fico muito muito feliz que consegui te tocar com ele, amiga. E assim seguimos!

  3. Ótimo texto, qndo cita a Sabrina chega a cair uma lágrima aqui, é dessa união que precisamos, amei.

    1. Precisamos e estamos nos unindo ainda mais. Amo a Sabrina estou aprendendo tanto com ela que não sei nem explicar.
      Obrigada pelo apoio.

    1. Obrigada pelo apoio de sempre, amiga!

  4. Amei amiga! Texto incrível pra refletir

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